Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Martelado

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O Robert Fripp dizia que a música é o vinho que enche a taça do silêncio. Frase bonita e boa para pespegar no Facebook com um pôr-do-sol nas Ilhas Malvinas. Caso seja uma fotografia de 1982, ainda se tem o bónus de alguns fogos de artificio britânicos dignos de um edil madeirense.

O que o guitarrista dos King Crimson se esqueceu de dizer, talvez por não ter nascido numa terra de tasqueiros como eu, é que existem várias qualidades de vinho. E, talvez nos remotos anos setenta, a única coisa que o poderia incomodar seriam os esganiçados dos Bee Gees que, convenhamos e comparativamente ao presente, até eram muito jeitosos. Agora quase que parecia a Nelma Viana a escrever. A rapariga anda a fazer escola, sim senhor.

Gosto de vinho. Tinto, branco, cheio, às bolinhas, tudo marcha. Parece-me que o que eu gosto mesmo é de modificadores de consciência mas isso eu não confesso nem a um padre da paróquia mais remota de Santa Cona do Assobio. Até porque é mentira, não gosto nada. Gosto é de estar careta e a aturar gente parva num estado de lucidez total.

O que eu não gosto, e chegando aqui já parei de mentir, é de vinho a martelo. Ou seja e corrigindo o Fripp, a música é o vinho que enche a taça do silêncio excepto quando é untz untz. Nesse caso, a música é o vinho a martelo que enche a taça da paciência.

Mas há de tudo. Há quem beba o vinho martelado e há quem ouça música de martelos. Reparem na minha magnânima utilização da palavra música em vez de usar a palavra certa que seria algo tão simples como merda. Aqui poderão argumentar que há gostos para tudo, que até há quem leia o Tugaleaks e a Nelma Viana, e que, afinal, eu sou mas é mais um facho dissimulado a tentar cercear a liberdade de escolha dos menos cultos.

Pois...

Mas os gostos discutem-se. E, muito mais importante do que serem discutidos, os gostos educam-se. E, se acho tolerável um adolescente qualquer entupir-se de Blow e de Untz Untz, já num adulto me parece tão apropriado como dormir com um boneco do Noddy em vez de se masturbar com umas sessões da Aria Giovanni. Além de que, recorrendo novamente à sabedoria do povo, a liberdade tem aquele tal comprimento que acaba onde começa e coiso e tal, vocês sabem o resto.

Ora tenho eu um vizinho que, sendo da minha idade, acha que o recurso ao vinho a martelo lhe vai conferir uma diminuição das rugas e um aspecto mais jovial. Não vai. Vai somente torná-lo numa daquelas pessoas que optaram por parecer que estão com esclerose múltipla num estado avançado. E, como bónus, chatear os cornos ao pobre do vizinho que o único barulho que faz é quando o manda baixar a puta do Untz Untz. Mais uma vez, a historieta das liberdades.

Por isto tudo, eu não peço que o gajo lá de cima me abençoasse com uma vizinha sueca que só enchesse a taça de champanhe francês mas ao menos não poderia ser um gajo que, pelo menos, bebesse um vinhozinho do Lidl?

Não. Tinha que ser um carrascão a martelo da Adega Cooperativa do Untz Untz. Estou fodido.

Olha Deus, vamos ter umas continhas a ajustar se um dia eu for aí parar. Depois veremos se gostas quando eu trocar as harpas dos anjos por umas caixas de ritmos a repetirem a mesma merda para toda a eternidade.

Até aposto que vais pedir asilo lá nas profundezas onde o clima é melhor.

Se fosses mas é para o caralho...

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