Nonsense consensual em forma de blogue.
Criado no dia 22 de Abril de 2012.

Boa noite

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Enrolei-me numa manta, trémulo e receoso, frágil. Abracei a almofada como se fosses tu e ainda murmurasses dorme bem.
Esticava as pernas e sentia-me a flutuar, encolhia-as e sentia-me a nascer. E apagava. Pagava por o que não era dito e por luzes que nunca acendemos no meio da nossa electricidade.

Boa noite, murmurei em resposta e algo sobre gostar de ti e de me aninhar. Procurava com a mão o conforto do teu peito, cerrava os olhos com força e imaginava-me no princípio. Lá não existiam terceiros nem segundas nem domingos. Não havia dias, nem sussurros. Era a altura de berrar livremente e jovem.

Envelheci. Envelhecemos. E, agora, não é tão fácil dizer-te boa noite.

Mas posso tentar.

Já deixei de contar

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Uma autora nova no M&T: Cris Oliveira ferra-nos o dente.

 

Já deixei de contar as vezes que ferrei os dentes em mim mesma.
Imaginando que eram os teus. Já me esqueci onde acabam os meus dentes e começa a tua boca.
É assim que me sinto ultimamente, o meu corpo enlouqueceu.
Pensa com o coração e sente com a alma.
A alma, essa que tenho que esticar para ver se absorvo algo de ti.
Saudades de ti, da soma de nós dois que já não cabe dentro mim.
Saudades dos momentos que não tivemos, dos beijos que não trocámos.
Saudades dos sitios onde não fomos.
É assim que me sinto ultimamente...
... que tens saudades de mim...

Rascunho

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Faz amor comigo.

Deixa o meu corpo e o teu resolverem aquilo que as nossas cabeças combatem. Deixa os nossos corpos se devorarem ate à última gota de suor.

Lucky Strike

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Há uns dias, enquanto a Nelma tomava a liberdade de me desafiar, eu optava por tomar um copo junto à praia. Cada um toma o que mais gosta e onde lhe sabe melhor.
Mas chega de estar a medir pilinhas com a Nelma porque vou obviamente perder.

Hoje, foi diferente.
Ao abrir a porta, sorri com a invasão de cheiro a chuva, uma lareira algures, terra molhada e merda. Hoje não vou à capital. Lisboa é como uma amante, gosto de lá ir mas quando quero paz é longe dela que me sinto bem.

Acabou a semana dos programas da manhã acompanhados de café e nicotina. Acabou a semana em que o Goucha dizia que se um tubarão lhe mordesse as extremidades ficaria empaturrado. Nunca imaginei que o Goucha tivesse uns cornos tão grandes. O mesmo apresentador participou nesta conversa:

- Cristina Ferreira: O que é uma pota?
- Goucha, ex-cozinheiro e wannabe mestre gourmet: É como um polvo.
 - Cozinheiro convidado não sei com quantos cursos: É da família do peixe.

  • Ó ignorantes de merda, será que ninguém sabe que a pota é quase a mesma merda que uma lula?

É com isto que tenho que levar durante a semana. Isto e as políticas sem sentido como as do Bloco de Esquerda. Com que então votaram contra os deputados do BE perderem o subsídio de férias? Sim senhor, belo exemplo da bancada da ganza e das casas de chuto. Depois, não se esqueçam de gritar a plenos pulmões que são diferentes só porque defendem as coisinhas mais populistas e evidentes como o direito à união de facto entre pessoas do mesmo género. A propósito disso, ainda me lembro do Chico Louçã dizer: “ A liderança do BE pode e deverá ser bicéfala com um homem e uma mulher como é natural.” Diz lá outra vez, Chico? Então? Andamos a resvalar para a tua odiada direita? Ou só fora da tua casa é que admites casais homossexuais?

Não tenho muito mais para escrevinhar hoje. Continuo a ficar admirado de viver num mundo onde as pessoas preferem ver programas de gordos a tentar emagrecer do que programas a alimentar quem tem fome mas eu sou um gajo esquisito e, se calhar, estou errado.

Até apanharia uma camioneta e iria até à minha amante Lisboa ver o que se passa mas um passe social é um quarto do ordenado mínimo. Coisa gira.

País de merda com gente de merda. E não, não estou maldisposto. Só não gosto de apanhar chuva quando vou comprar tabaco.








O Beijo

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Mais um texto da Alexandra Moreira com uma variação em Van Gogh, Klimt 'n Turner de Medinos a acompanhar.


O beijo deixou-a atordoada e mole. Como o primeiro cigarro. A cabeça vazia. Era suposto pelo menos algum excitamento, algum elã, mas ela só sentia um entorpecimento ínvio a percorrer-lhe o corpo. Não percebia.
-Que tens?
Não sabia explicar. Gostava dele até àquele beijo. Agora já não sabia o que sentia…as mãos dele percorreram-lhe o corpo docemente, quase a medo. Estremeceu do torpor. Pareceu-lhe
que acordava com lentidão para aquele jogo a dois, mas não. Encolheu-se.
-Não quero, sussurrou. Não sabia explicar mais nada. Só a negação e pensou “não gosto dele”.
-Porquê? Que tens?
Tantas perguntas. Não era evidente? A voz dele irritou-a. Não queria ser obrigada a verbalizar o desafeto. Não havia necessidade.
Saiu do carro de rompante. Ar fresco. Que bom!
- Que tens? Porque não falas?
Não tinha nada para lhe dizer que quisesse dizer-lhe.
-Não tenho nada para dizer. Não me apetece.
- Mas porquê?
A sufocar com as perguntas dele, quando afinal não havia mistério nenhum. Era só somar. Ainda dizem que as mulheres são complicadas.
- Leva-me a casa, por favor
Ele agarrou-a e beijou-a à força, como se pudesse com isso desenrolar o novelo. Ela não correspondeu. Impávida, repetiu
-Leva-me a casa
- Foda-se!
O carro correu a estrada no mais estranho silêncio. Dois seres que não se compreendem sem palavras é de uma tristeza atroz. Não foram feitos para um beijo quanto mais um para o outro.


Sacudir depois de usar

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Gosto de viver em Portugal apesar do sensato conselho de emigração que todos odiaram mas repetem diariamente nas tascas, autocarros e lares. Aparentemente, só o cavalheiro é que estava proibido de pensar que no estrangeiro existem oportunidades que por cá vão sendo cada vez mais escassas. Gosto do tinto, da praia, dos pregos mal passados e da jihad futebolística. Tudo isso me agrada.

Gosto dos ordenados miseráveis, dos autocarros apinhados de gentes e odores, do pouco que se trabalha e do muito que se protesta. Gosto do meu país.

Mas não gosto de arrivistas.

Um arrivista, para quem o conceito não é familiar, é um videirinho, um trabalhador árduo. Mas com uma diferença, qualquer meio serve para atingir os seus fins e não hesita em o usar para vigarizar o próximo. E, nesta época de crise, os arrivistas multiplicam-se mais depressa do que contas na caixa do correio. Entre eles temos a página de propaganda nacional-socialista do movimento Tugaleaks.

Escrito numa forma populista e repleta de erros factuais e ortográficos, até porque o seu fundador Rui Cruz não sabe fazer melhor, este movimento alegadamente revolucionário dispara para todos os lados com a vã esperança de ganhar a notoriedade suficiente que lhe permita ganhar mais uns tostões. E os habitantes do meu país do tinto e dos pregos vão atrás.

É a chamada carneirada e não me refiro a adeptos do pobre coitado que, literalmente, se espalhou em Camarate. São carneiros porque gostam do conforto que a agremiação lhes proporciona, porque não sabem ou não lhes apetece pensar, porque têm medo da impopularidade que divergir lhes pode conferir.

Os dogmas existem para ser demolidos.

Outra arrivista é a menina Conceição Bernardes, directora da EB1 n.º 2 de Quarteira, do Agrupamento de Escolas Dr.ª Laura Ayres que, posteriormente e para abreviar passará a ser referida como “estupor”.

Os pais duma criança de cinco anos tinham um valor em atraso referente às refeições que a escola fornece. E qual é a solução do estupor? Proíbe a criança de comer, proíbe que terceiros paguem a refeição à menina e senta-a junto dos outros que estavam a comer.
Segundo o estupor o problema está controlado. A maioria dos devedores regularizou a situação e quem não o fez tem ido buscar os filhos à hora do almoço.

E quem está a trabalhar a essa hora, ó meu estupor?
E quem não tem dinheiro e tem que ficar a dever?
E as crianças que têm pais idiotas, que ainda são muitas, e pagam pelos erros dos pais?

É uma escola pública, paga por todos e não te sai do bolso, pá! Também gostarias que os teus fornecedores te cortassem o crédito por, como todas as empresas do Estado, pagares mal e tarde?

Diz ainda, com um ar orgulhoso, que a menina recebeu um sandoca à hora do lanche. Nada mau. Desde as 9 da manhã até às 4 da tarde sem comer. Mas recebeu um pão com margarina.

Margarina, querida Sãozinha, era o que necessitarias enquanto eras estuprada por uma dezena de puros sangue lusitanos.


Nem tudo é mau. Na categoria das páginas de protesto temos o Pikamiolos.
Ao contrário do Tugaleaks, é isenta, escrita num português correcto e limita-se a informar sem fazer juízos de valor. Muito recomendável para aqueles portugueses que o único sítio onde puxam por Portugal é nos estádios de futebol e, fora isso, só sabem dizer mal e bebericar umas Sagres. Talvez ali aprendam o que é, e cito o Pikamiolos, um espaço de lazer, cidadania e reflexão.


Ser cidadão implica direitos e deveres. Mas antes do cidadão, existe o Homem. E um homem não é um carneiro. Nem tudo é preto ou branco e nas áreas cinzentas move-se quem pensa. Cuspir para o alto ou mijar contra o vento sempre foi má ideia mas é preferível do que atolar o livre arbítrio numa sanita pública.

Dos Anjos

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 E, no regresso, um texto da talentosa Alexandra Moreira.



O bar está cheio de mascarados. Já me empurraram meia dúzia de vezes. Não tarda salto-lhes ao pescoço e eles vão ver o que é real e o que é brincadeira. A cerveja é uma merda morna, sem vida. Noites destas são um insulto à minha existência.

- Queres dançar?

Olha a gaja. Quer dançar. Vamos à dança!

Sangue fresco, sangue novo. Rodopiamos. Não posso. Só enlatados. Esta cidade está cercada.

Diz-me o nome como se eu quisesse saber

- Sandra Vanessa dos Anjos

- Prazer em comê-la e em bebê-la, sussurrei-lhe ao ouvido. Ela estremeceu. Foi medo. Foi pleasure.

Depois largo-a na pista, solto-a numa das voltas, deixo-a a dançar em roda livre, cheira a suor perfumado, não me agradas mais dos Anjos.

Volto à morna. Espero a minha princesa negra e sombria. Como eu. E se não existe? E se não a descubro? Merda de cerveja. E se não? Condenado a rodopiar com Vanessas. Vou vomitar. Bebi demais.

O bar está cheio de mascarados e o único mascarado aqui sou eu.

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